Retirada do Mel

"O pedreiro Seu Nô, do Alto dos Macacos andou apalpando a caixinha de Jandaíra e disse: 'Tão gorda" e se ofereceu para 'despescar' o mel. No sertão do Nordeste as Jandaíras só são despescadas e não tratadas." p.11-2.
"Sempre pergunto aos meleiros: Por que vocês, quando tiram o mel nos matos, destroem a árvore e a abelha??? Ninguém mata a vaca para tirar o leite, nem mata a galinha para colher o ovo: tenho a impressão que o homem, ao abandonar o campo, perde a sensibilidade." p.9
"No dia 20 aparece um dos melhores sinais de boa safra de mel: mofo nos potes. Outro igualmente bom: piolhinhos menores que cafifas passeando em cima dos favos novos." p. 20
Monsenhor Huberto Bruening, "A Abelha Jandaíra", 1990.

Os piolhinhos são ácaros que, assim como algumas espécies de besouros, são considerados inquilinos das abelhas. Eles convivem com as abelhas dentro da colmeia sem lhes acarretar nenhum mal.

1. Retirando o mel




Rótulos de garrafas de méis de jandaíra

Figura 1. Sequência de passos da retirada do mel

O mel é retirado dos cortiços 30-60 dias após o início das chuvas. Os cortiços escolhidos para a retirada do mel são os que possuem, pelo menos, volume duas vezes maior de que mel do que o volume dos favos de cria.

A colheita de mel pode ser feita de modo tradicional, furando os potes com uma faca ou um garfo e recolhendo o mel que deposita no fundo do cortiço através de uma abertura (um furo) na base da caixa (geralmente vedada com uma rolha). Os potes de pólen não devem ser manipulados.

Esse procedimento pode ser feito numa superfície ligeiramente inclinada para acumular o mel na parte posterior do cortiço enquanto se furam os potes. O mel deve ser coado em peneira de plástico para separar as impurezas tais como restos de cerume, detritos ou mesmo abelhas.

Quando o mel for retirado, se a posição do ninho for muito inclinada, os ovos dos favos de cria podem cair no alimento larval. Dessa forma, não se desenvolvem, e o ninho perde vários indivíduos, prejudicando o desenvolvimento da colônia. Por isso, é importante o uso da caixa articulada em duas partes: a dos favos e a dos potes de mel.

Após a retirada do mel, a caixa das abelhas deve ser bem fechada, lacrada com barro ou cera de abelha quando ocorrer frestas. Ezequiel R. M. Macedo parafusa as tampas na sua base, o que permite um fechamento muito bom. Esse manejo facilita a limpeza da caixa pelas abelhas e evita a atração de inimigos como os forídeos (mosca ligeira).

Alguns meliponicultores retiram os blocos de potes de mel da colônia, perfuram-nos e deixam-nos escorrer sobre uma peneira. Após esse procedimento, o cerume é lavado e recolocado nos ninhos para que as abelhas os reutilizem na construção interna. Alguns meliponicultores deixam o cerume próximo dos ninhos e as próprias abelhas se encarregam de levá-lo para o interior do ninho. Não aconselhamos este procedimento, pois estimula roubos entre colônias. Fotos

O mel também pode ser retirado com bombas de sucção, diretamente dos potes. É preciso regular a entrada de ar na bomba para o mel não espumar.

2. Guardando e conservando o mel

O vasilhame para guardar o mel deve ser de vidro transparente e com tampa que vede bem. Vidro bem lavado e seco é importante para evitar o aumento de água no mel e a conseqüente fermentação.

O melhor local para guardar o mel é na geladeira porque baixas temperaturas (4ºC) evitam que o mel fermente. Alguns meliponicultores só tiram o mel quando há encomenda. Entretanto, mel que fica muito tempo na geladeira (alguns apenas duas semanas) também cristalizam, e isto pode dificultar o seu manuseio e o comércio. Lembre-se que todo o mel puro cristaliza. A velocidade de cristalização vai depender da origem floral do mel.

No rótulo do pote de mel deve ser feita a identificação da abelha que forneceu o mel (por exemplo, mel de jandaíra), a região geográfica onde foi coletado (por exemplo, Jardim do Seridó), e se possível, a origem floral. Data de coleta e envase tambem são importantes para o consumidor.

Méis de jandaíra e das outras abelhas sem ferrão são mais aguados que os méis de Apis (abelha de mel), podendo conter de 25-32% de água. Essa porcentagem de água varia com a época do ano (inverno ou verão) e com a região geográfica (sertão ou litoral).

O mel de jandaíra é considerado medicinal pelas populações locais, tendo sido usado para inflamações dos olhos, dor de ouvido, problemas respiratórios (resfriado e tosse), feridas, picada de cobra, etc.. Esse mel é também usado em nebulizador e na gemada como adoçante.

3. Vedação da colônia com barro

Após a retirada de mel, transferência do ninho ou após inspeções das colônias, é preciso vedá-las bem. O uso de barro umedecido é bastante comum. Na transferência das colônias pode ocorrer derrame de mel e pólen dos potes, o que atrai a presença de forídeos ou mosca-ligeira, que são inimigos das abelhas. A vedação da colônia pode ser feita pelo meliponicultor ou pela própria abelhas, como já dizia o Monsenhor Bruening:

" Reparei então um fato singular: para calafetar rapidamente a caixa-mãe, as Jandaíras carregavam cocô de galinha que era o material mais próximo e mais barato. O barro ficava distante e elas tinham pressa. Eis mais uma razão porque a tampa do cortiço deve ser bem vedada sem precisar de acabamento de reboco."
Monsenhor Huberto Bruening, "A Abelha Jandaíra", 1990: 30

Figura 2. Vedação da colônia com barro